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sábado, 3 de abril de 2010

Literatura, niilismo e história

Não há maneira mais eficiente (se é que há alguma outra) de entender a natureza humana do que através da literatura (de qualidade).
Ao longo da história, uma série enorme de personagens "ficcionais" pontuam a literatura mundial com todas as dores e delícias da "anima", e com todos os segredos e disposições (pro mal e pro bem) dos humanos.
Nos últimos dois séculos, em virtude do inegável predomínio (mas não superioridade) cultural anglo-saxônico, massificaram-se personagens novelescos como Romeu, Rei Lear ou Hamlet que, com mais ou menos profundidade, retratam um ser humano que oscila entre o dócil e o hostil, sem contudo esmiuçar o que há de mais profundo no "subsolo" da alma, e na margem tanto dela quanto da própria sociedade, ou talvez da existência.
Nesse quesito, as melhores contribuições vem, não por acaso, do leste europeu.
Personagens como Rodion Romanovitch (Crime e Castigo - Dostoievski); Gregor Sansa (Metamorfose - Kafka); e a "dupla" Piotr Stiepanovitch (e seu pai Stiepan) e Nikolai Stavróguin (com a mãe, Varvara Petrovna), do perturbador "Os Demônios", de Dostoievski, e de outras obras precedentes (destaque para Almas Mortas, de Gógol), esmiuçam tudo aquilo que, na atualidade, os espelhos da moda não mostram, e a TV não deixa deduzir, mas que nem por isso deixou de estar presente na índole humana.
No caso da literatura brasileira, Brás Cubas é o niilista emérito, e talvez único, que jogou na cara da decadente aristocracia de seu tempo sua inutilidade e sua nova nomenclatura, os "homens supérfluos" (na designação de Turguêniev, sobre a mesma "casta", mas na Rússia).
Ao mesmo tempo, Brás Cubas também desmascara, ao lado dos já citados personagens russos, a superficialidade do "homem burguês" emergente e a tirania dos revolucionários radicais, os "Demônios" de Dostoievski, sementes geradoras dos famosos Hitler e Stálin.
Olhar pra dentro da alma humana, para o "subsolo" (de novo Dostoievski) é a forma mais honesta de evolução, afinal, não é sempre que se pode espantar os fantasmas simplesmente fechando os olhos.


sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fichamento comentado do artigo “A Liberdade em Dostoiévski” por Stefano Zurlo



Pg.2 – “Essas palavras são de capital importância: se nós não aceitamos mais a criação, somos obrigados a matar o pai, Deus, para reivindicar a nossa liberdade.”

Este trecho refere-se a uma passagem de “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievski.
Aqui se encontra em primeira instância a morte de Deus que liga Dostoievski a Nietzsche acerca da questão do niilismo, pois para Nietzsche a morte de Deus é o fundamento do niilismo.
O homem que quer ser realmente livre deve perder o medo da morte, pois o homem criou Deus por causa desse medo. De forma que só com a inexistência de Deus esse medo pode se esvair e o homem enfim se sentir liberto de qualquer impedimento para suas vontades de poder.

Pg.2 - “A morte de Deus leva à abolição das regras, ao ‘tudo é permitido’. E o homem, aparentemente livre, mete-se num beco sem saída. Delimitado pelas fronteiras da tragédia humana e coletiva.”

O lado realista do niilismo pode ser lido nesse trecho. O que chamo de niilismo ativo, onde o homem renegando os valores metafísicos redireciona a sua força vital para a destruição da moral. No entanto, após essa destruição, tudo cai no vazio: a vida é desprovida de qualquer sentido, reina o absurdo e o niilista não pode ver outra alternativa senão esperar pela morte ou até mesmo provocá-la. Entretanto, esse final não é, para Nietzsche, o fim último do niilismo: no momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno: sem isso o niilismo será sempre um ciclo incompleto.

Pg. 2 - “A liberdade como arbítrio é representada em ‘Os Demônios’ por Kirillov. Kirillov é um personagem extraordinário, que vive sob o signo da totalidade. Nega a Deus e, como conseqüência, afirma sua própria divindade, realizando assim a profecia de Feuerbach: homo homini deus (o homem é deus para o homem). E para demonstrar até o fim a sua força, Kirillov não hesita em realizar o gesto supremo, o suicídio, que desafia todos os limites e medos.”

Kirilov é o niilista em pessoa (ou em personagem) na obra “Os Demônios” de Dostoiévski. Como pode ser apreendido nesse trecho ele nega a Deus e se liberta dos medos metafísicos do além vida. Torna-se deus de si de forma que a vida não possui a moral cristã que enche o homem de grilhões. E ainda se rebela niilistamente dentro de si através do suicídio.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dostoiévski - um jogador compulsivo

O livro O Jogador é, ao mesmo tempo, autobiográfico, genial e uma das mais perfeitas histórias literárias já contada por um ser humano.

Fiodor Mikaílovich Dostoiévski

Nascimento- 11 de novembro de 1821, em Moslovo.

Falecimento- 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo.

Seu primeiro contato com a roleta - Dostoiévski era jogador compulsivo

O francês Louis Blanc, fundador do jogo da roleta organizado, proibido de continuar explorar seus cassinos em Paris, ambicionou a Alemanha, montando quatro casas famosas de jogos nas cidades de Homburg, Wiesbaden, Baden-Baden e Ems.

Daí começou a famigeração e o vício coletivo, destrutivo, algoz. Com seu prestígio, manteve suas casas de jogos até 1868. Até que uma lei federal, não obstante todo o prestígio do maldito “cassineiro”, interditou e fechou seus cassinos em todo território alemão.

Esse homem, francês terrível e inescrupuloso, com o apoio do príncipe Carlos de Mônaco, fundava então seu mais extraordinário e famoso cassino na cidade de Monte Carlo.

Os russos tornaram-se freqüentadores assíduos do chamado balneário, que na verdade nada fazia para relaxamento do corpo, muito pelo contrário, saiam desmoralizados, corpos em frangalhos, bolsos vazios. Quando não ficavam por lá mesmo, debaixo da terra.

Dentre esses russos viciados, esse maldito francês arrebanhou nosso querido e inestimável Fiodor Dostoiévski, que se deixou seduzir pelas roletas, pelo fascício dos panos verdes, um paradoxo para um dos maiores escritores do planeta, se não for o maior, ao menos no quesito só idéias geniais para romances, já que é constatado que é o escritor de mais proliferação de idéias que uma mente humana poderia ter para literatura. Essa informação é oficial no mundo inteiro, querido leitor.

Certamente haveremos de prestar reverências eternas a Dostoiévski, autor de Crime e Castigo, Os irmãos Karamazov, Noites Brancas, Memórias do Subsolo, O Idiota, O Crocodilo, Nietotchka… (quero ler toda sua obra antes de partir).

Atormentado em toda sua vida, desde jovem preocupava-se com questões materias, em meio a turbilhão de conflitos internos e espirituais. Mas sabe-se também que sua queda para jogo já vinha de há muito, pois passou a juventude a jogar dominó e bilhar, sempre em busca de lucros. Talvez desta forma tentasse fugir de sua mente gigantescamente criativa, uma alucinada máquina de criar.

Desde que voltara da Casa dos Mortos (um de seus primeiros romances), trazendo sua mulher, uma franzina e tísica viúva louca, com o filho desta, e sofrendo terrivelmente com sua epilepsia, migrar para a Europa Ocidental, tornou obsessão do escritor de O Jogador.

Escrevia milhares de artigos, mas estava sempre com dívidas. Assim, no dia 7 de junho, deixou sozinho a Rússia, com algum dinheiro adiantado por seus próximos romances.

Viaja por países como França, Inglaterra, Itália, Suíça, Alemanha. Deslumbra-se com o pano verde das jogatinas. Ingênuo ainda, joga e ganha bastante dinheiro.

Esse é um trecho de uma curiosa carta que Fiodor Dostoiévski escreve à cunhada de Paris após contato com a roleta:

Durante quatro dias observei as mesas de perto. Havia ali centenas de jogadores, mas, palavra de honra, só duas pessoas sabiam jogar! Era uma francesa e um lord inglês. Entendiam do jogo e nunca perdiam, pouco faltando para rebentar a banca. Peço-lhe, não creia que eu estava radiante de alegria porque acabava de ganhar em vez de perder, que eu me julgue um grande conhecedor do segredo do jogo. Esse segredo, aliás, bem o sei, é o que há de mais simples e estúpido. É preciso unicamente domínio sobre si mesmo e, sejam quais forem as peripécias do jogo, a gente evitar o entusiasmo excessivo. Eis tudo. Esta regra impedirá você de perder, fazendo-lhe necessariamente ganhar.

Daí pra frente, só sofrimento e miséria, por dez anos esse vício, mais sua doença incurável, fizeram de Dostoiévski um sofredor, mas o gênio fez de toda essa amarga odisséia sua fonte de inspiração literária.

Na continuidade, falarei do referido livro - O Jogador - e verão como essa inspiração divina se manisfestava, e como esse miraculoso processo inspirador excitava as mais profundas e ultra-sensíveis fibras de criação do escritor.

Não por acaso, Fiodor Dostoiévski é o escritor de maior número de obras literárias que se obteve de um cérebro humano.

Autores que tiveram influência de Dostoiévski

  • Marcel Proust
  • Franz Kafka
  • Albert Camus
  • Nietzsche
  • Sartre
  • Freud
  • Yukio Mishima
  • Aleksandr Solzhenitsyni

Um gênio que fez de suas mazelas, fonte de inspiração, quando qualquer mortal se abateria em fracassos, debatendo-se em desespero.

Mas gênio é gênio.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Excerto do conto Eleonora, de Edgar Allan Poe.

"Os homens chamaram-me louco; mas ainda não está assente se a loucura é ou não a mais elevada das inteligências, se quase tudo o que é glória, se tudo o que é profundidade, não provém de uma doença do pensamento, de um modo de ser do espírito à custa do intelecto geral. Os que sonham de dia têm conhecimento de muitas coisas que escapam aos que só sonham de noite. Nas suas visões brumosas, captam foragidos da eternidade e estremecem, ao despertar, por verem que estiveram à beira do segredo. Captam pedaços de algo do conhecimento do Bem, a ainda mais da ciência do Mal. Sem leme e sem bússola, penetram no vasto oceano de luz inefável, como se para imitar os aventureiros do geógrafo núbio, agressi sunt Mare Tenebrarum, quid in eo esset exploraturi. Diremos, por conseguinte, que sou louco. Reconheço, pelo menos, que há duas condições distintas na minha existência espiritual: a condição de razão incontestavelmente lúcida, e a condição de sombra e de dúvida."